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05 August, 2018

Fazia algum tempo que as fotos do Fernando estavam editadas e os áudios arquivados para que o texto viesse a ser escrito algum dia. Nessa semana quando comecei a ouvir a conversa gravada lá no início do ano, consegui perceber como as pessoas influenciam na intimidade que temos com o nosso próprio corpo e a forma como relacionamos com ele (algo que deveria ser normal e intenso, porque é de fato a única coisa que temos):


“Fui uma criança gordinha e afeminada, isso por si só já chamava atenção e o resultado disso era ser discriminado pelas outras crianças, me tornando durante muito tempo alvo das pessoas e de reclusão interna. Minha autoestima foi lapidada com os comentários que eu ouvia pelas costas “o Fernando nunca será magro” ou “o Fernando nunca terá esse corpo””.


Aos poucos fui crescendo e seguindo o rumo da vida com a noção de ser gordinho e o conceito de o “gordinho não ser bonito”; isso acontece de todas as formas inimagináveis as pessoas não se cansam de te lembrar que você deve se encaixar dentro do padrão musa de verão.

E a vamos crescendo deixando de amar a nós mesmos sem querer, porque se não tivermos um autoconhecimento e aceitação própria fica bem mais fácil deixar ser influenciado pela massa esmagadora de pessoas que estipulam um tipo estético de beleza.


“Em determinado momento comecei as pessoas começaram a me elogiar e me sentir bem comigo mesmo, porque havia emagrecido devido aos exercícios físicos que estava fazendo na época, isso durou até quando comecei a namorar e me descuidei novamente, voltando a engordar. Quando terminei o namoro voltei a usar aplicativos de relacionamento e o mesmo discurso bateu novamente com o “gordinho não é aceitável””.


Os momentos que são só nossos perdem os valores e as intensidades, no tempo em que temos tempo para amar nossos corpos na frente de um espelho dentro de um quarto, somos castigados por pessoas que nem estão ali, olhamos nossas gordurinhas e pensamos em formas de acabar com elas. A nossa privacidade e intimidade é roubada por outras pessoas.

Hoje tenho a concepção diferente do meu corpo, mas ainda assim é difícil mudar o pensamento completamente, às vezes não me sinto bem passando a mão no meu próprio corpo ou quando estou me olhando no espelho.


As pessoas te julgam falando que não é sobre ser gordo, mas sobre “ser saudável”.


Sempre tive vontade de fazer um ensaio de nu artístico, mas isso nunca me passou pela cabeça porque desde sempre imaginei que apenas pessoas com o corpo escultural poderiam participar de coisas desse tipo e agora consigo perceber que esse é um passo fundamental para que eu possa me aceitar, para que eu possa estar confortável comigo e fugir do padrão, para que eu possa ser quem nasci para ser: eu”.



formas /sf/
1.configuração física característica dos seres e das coisas, como decorrência da estruturação das suas partes; formato, feitio.

Fotografia: Igor Medeiroz

16 June, 2018

Das pessoas que chamei para participar do projeto, o Gezinei foi um daqueles que mais apresentou vontade, mostrando a aceitação e o bom relacionamento do próprio corpo logo de cara, mas explicando que nem sempre foi assim. Então decidimos falar sobre a metamorfose que somos, as transcendências que o espirito ultrapassa e permite olharmos para a carne de outra forma.


“Analisando as transformações que aconteceram durante minha infância, adolescência e atualmente, a melhor palavra para me descrever seria mudança: quando você está passível a mudanças e quebrar rupturas, você permite que seu corpo seja aceito por você mesmo. ”

As pessoas têm certos problemas com o desconhecido, a mudança em si nunca é bem-vinda porque exige a distorção da cultura estagnada e empregada durante séculos, exige que seja contrariado os conceitos aceitos como belo, mas “não há problemas em mudar, aliás, é isso que somos, constante mudanças. Nada é parado e sólido, no decorrer da vida somos submetidos a diversas coisas que nos modificam e somos obrigados a se adequar para sobreviver. ”


Para Gezinei, a aceitação foi algo que aconteceu no decorrer dos anos: “fui uma criança criada no interior e dentro de uma família rígida que pouco se preocupava com aparência, cresci com essa perspectiva e a beleza estética era algo sem importância para mim, se brincar, não sabia nem a utilidade de um espelho. Isso perdurou durante toda a minha infância”.

“Com a essência dessa infância, no iniciar a minha adolescência continuei desligado quanto ao corpo e tudo relacionado a ele. Até que em determinado momento comecei a perceber que por conta desse desligamento e por ser “fora do padrão”, pouco a pouco o fato de ser gordinho acarretava em certas brincadeiras que, mesmo aparentemente não revelando, mexiam comigo interiormente. Então, em um determinado momento dessa fase, resolvi que deveria emagrecer e fui da maneira mais abrupta possível: não me alimentava direito, tentava fazer exercícios e muitas vezes acaba passando mal.”


“Quando entrei para a carreira de modelo percebi que nada é bom o suficiente, o seu corpo nunca é bom o suficiente. Se você é magro, tem que ser mais magro. Se você é musculoso tem que ser mais musculoso. Não tardou para entender que existem várias formas de você se sentir bem; cultuo a ideia que não existe um estereótipo de corpo para você se sentir bem, mas sim de lidar com as próprias inseguranças e estar disposto a essas mudanças que a vida dispõe”, diz Gezinei.

“Ainda tenho inseguranças – sempre haverá algo que a gente quer mudar ou acha que pode melhorar. Atualmente já lido de uma forma diferente, por exemplo, por ter sido gordinho tenho a cintura mais larga, isso me incomodou durante anos, mas hoje isso já não me atormenta mais, pois consigo confrontar essa insegurança e não permitir que ela e muitas coisas me machuque ou afetem minha autoestima. A partir do momento que você confronta essas inseguranças tudo se torna mais fácil, inclusive viver. ”



mudar /v/
1.fazer ou sofrer modificação; modificar(-se), alterar(-se). 2. deslocar ou transferir(-se) para outro local. 3. apresentar(-se) de modo diferente, física ou moralmente;

Texto: Igor Medeiroz
Fotografia: Igor Medeiroz

28 April, 2018

Lembro que era início de janeiro quando o Galileu decidiu compartilhar sua história para o projeto, decidimos fazer as fotos o mais cedo e mais natural possível, totalmente despido no ar livre, perto do lago das nossas casas. Nunca fomos próximos, mas moramos relativamente perto e sempre nas conversas de idas e vindas, descobri que Galileu ficou mais de um ano internado e sabia que falar sobre esse momento seria delicado e importante, só não sabia como ficar tanto tempo poderia ter desencadeado frustrações com o próprio corpo.


Durante a nossa conversa ele me contou:

“Sou completamente apaixonado por corpo e estética. Porém a 1 anos atrás passei por uma tragédia que modificou bruscamente meu corpo. Quando entrei no hospital estava com o corpo desejado. Acordava 5 horas da manhã para treinar, vivia dentro da academia para alcançar um corpo perfeito. Mas quando sai, um ano depois, devido procedimentos tinha ganhado o dobro do peso, sem cabelo e cheio de cicatrizes.”




“Sempre gostei muito do meu corpo, mas depois que adoeci comecei a me esquivar de fotos e inclusive de me permitir de conhecer novas pessoas. Então comecei a sentir nojo de mim e isso tirou toda vaidade, me trouxe vergonha e medo de ficar nu, até mesmo de sunga, era como se eu não fosse mais sensual”


“Esse momento na minha vida me trouxe ressignificados, percebi que haviam outras coisas a serem valorizadas em mim além do meu corpo, do padrão estético imposto, como o crescimento profissional e acadêmico. Passei a perceber que as pessoas deixam de valorizar a beleza que realmente importa, que é intelecto, cultura e dedicação. Elas ficam padronizadas em ter o corpo perfeito. ”


certeza /sf/
1. qualidade, caráter ou virtude do que é certo ou considerado certo. 2. conhecimento íntimo ou expresso; convicção."tem c. de que existe reencarnação"

Texto: Igor Medeiroz
Fotografia: Igor Medeiroz

16 April, 2018

O Que seja nu. surgiu, o esboço foi unir o nu artístico com histórias únicas de cada participante, a proposta foi (e ainda é) desmitificar o corpo, deixa-lo menos tabu, menos sexual e observar a potência de cada um que parasse em frente as lentes e compartilhasse um pouco de si.




Crescemos dentro de uma sociedade que diz o que devemos fazer ou não com o nosso (próprio) corpo. Meninos usam azul, meninas usam rosa, bom ser magro, ter o cabelo liso (ou cacheado se estiver na moda); existe alguns modelos padrões, alto e esbelto, que nos roubam da normalidade dos nossos corpos. Se for feio, fique vestido. Se for bonito, mostra, mostra porque os olhos não querem ver quem está ali no retrato, mas como está ali, como é o corpo, qual é o tamanho, quais são as outras medidas.





Quando o Henrico disse "sempre estou procurando uma forma de se encaixar e de sentir bem" propus que o ensaio se chamasse In(sólito), porque poderia brincar com a ideia de não pertencimento e ao mesmo tempo de poder pertencer. "Adoramos a ideia de acordar e encontrar com as pessoas que são do nosso nicho, que nos confortam e nos fazem sentir parte de algo maior do que nossa individualidade".

Nessa perspectiva abrimos mão do que é nosso, como as convicções, as culturas e até mesmo mudamos o nosso jeito de ser, como eu disse, para que possamos pertencer a algo. A grande questão é, às vezes, abrimos mão da nossa parte insólita, a parte que não deve pertencer a nada além de nós mesmo é deixada de lado, porque apreciamos a ideia de que “precisamos” fazer parte.






Digo isso porque, talvez, não seja normal acordar e não apreciar o tamanho do nariz, a diferença dos dentes, as gordurinhas a mais. Às vezes me encontro diante disso, desses questionamentos que faço a mim mesmo e depois me pego refletindo sobre “qual a origem disso?”. Será o motivo dessa solitude as pessoas dizerem que deveria ser assim, invés de assado?






Talvez devêssemos ser todos assado, para mostrar que somos iguais na diferença, nos tamanhos, nas belezas. Que está tudo bem ser diferente e não precisar se encaixar, com o corpo, em algum estado de beleza que sempre exige demais do que apenas aceitação.




in(sólito) /adj/
1. que não é habitual; infrequente, raro, incomum, anormal. 2. que se opõe aos usos e costumes; que é contrário às regras, à tradição. (1. que se acostumou, que adquiriu o hábito; habituado, acostumado. 2. que costuma acontecer com frequência, que não é raro; costumeiro, habitual, usual.)


Texto: Igor Medeiroz
Fotografia: Igor Medeiroz

07 April, 2018


Se existe uma coisa que adoro escrever, é sobre romance. Gosto dos romances porque eles intensificam a vida, os sentimentos e propõe uma perspectiva (geralmente) positiva sobre a vida. O ensaio feito com o Wally fala justamente sobre isso, um romance, mas não um qualquer, não um romântico: mas o seu relacionamento com a dança.




“Minha avó tem uns vídeos na casa dela que me mostra ainda criança dançando entre os adultos, desde muito novo eu danço, meu pai dançava charme, os famosos passinhos sociais, foi uma espécie de incentivo par mim. Entrei em vários grupos de dança, como axé, tive a oportunidade de dançar jazz dentro de uma academia qual eu consegui bolsa e a partir daquele momento segui com aquilo para a vida toda. ”




Não existe dança e Wally separados, acho que na verdade, sem dança não haveria Wally.

Decidi trabalhar com dança, ser bailarino e viver disso aos 17 anos quando encontrei a dança contemporânea, essa ideia se solidificou com o passar do tempo, quando já estava fazendo cursos, ministrando aulas e quando percebi já estava totalmente inserido dentro da dança. Não é um trabalho fácil, porque querem que você dance muito bem sem permissão para erros, ser bailarino exige muito da essência, você tem que estar ali presente corpo e alma. Apesar de tudo sei que consigo ser feliz com a dança e serei feliz com a dança, por isso persisto.




A dança flui do meu corpo, de quem eu sou, é algo meu. A dança é minha vida, não me vejo mais sem.

ritmo /sm/
2. movimento regular e periódico no curso de qualquer processo; cadência. 3. sequência harmônica de um fenômeno, uma atividade, uma obra etc., no espaço e/ou no tempo..

“Livre” por Daniel Moraes

N asci dentro de uma família evangélica (pais pastores), tradicional e ser diferente disso nunca foi uma opção. Desde pequeno foi consta...