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28 April, 2018

Lembro que era início de janeiro quando o Galileu decidiu compartilhar sua história para o projeto, decidimos fazer as fotos o mais cedo e mais natural possível, totalmente despido no ar livre, perto do lago das nossas casas. Nunca fomos próximos, mas moramos relativamente perto e sempre nas conversas de idas e vindas, descobri que Galileu ficou mais de um ano internado e sabia que falar sobre esse momento seria delicado e importante, só não sabia como ficar tanto tempo poderia ter desencadeado frustrações com o próprio corpo.


Durante a nossa conversa ele me contou:

“Sou completamente apaixonado por corpo e estética. Porém a 1 anos atrás passei por uma tragédia que modificou bruscamente meu corpo. Quando entrei no hospital estava com o corpo desejado. Acordava 5 horas da manhã para treinar, vivia dentro da academia para alcançar um corpo perfeito. Mas quando sai, um ano depois, devido procedimentos tinha ganhado o dobro do peso, sem cabelo e cheio de cicatrizes.”




“Sempre gostei muito do meu corpo, mas depois que adoeci comecei a me esquivar de fotos e inclusive de me permitir de conhecer novas pessoas. Então comecei a sentir nojo de mim e isso tirou toda vaidade, me trouxe vergonha e medo de ficar nu, até mesmo de sunga, era como se eu não fosse mais sensual”


“Esse momento na minha vida me trouxe ressignificados, percebi que haviam outras coisas a serem valorizadas em mim além do meu corpo, do padrão estético imposto, como o crescimento profissional e acadêmico. Passei a perceber que as pessoas deixam de valorizar a beleza que realmente importa, que é intelecto, cultura e dedicação. Elas ficam padronizadas em ter o corpo perfeito. ”


certeza /sf/
1. qualidade, caráter ou virtude do que é certo ou considerado certo. 2. conhecimento íntimo ou expresso; convicção."tem c. de que existe reencarnação"

Texto: Igor Medeiroz
Fotografia: Igor Medeiroz

16 April, 2018

O Que seja nu. surgiu, o esboço foi unir o nu artístico com histórias únicas de cada participante, a proposta foi (e ainda é) desmitificar o corpo, deixa-lo menos tabu, menos sexual e observar a potência de cada um que parasse em frente as lentes e compartilhasse um pouco de si.




Crescemos dentro de uma sociedade que diz o que devemos fazer ou não com o nosso (próprio) corpo. Meninos usam azul, meninas usam rosa, bom ser magro, ter o cabelo liso (ou cacheado se estiver na moda); existe alguns modelos padrões, alto e esbelto, que nos roubam da normalidade dos nossos corpos. Se for feio, fique vestido. Se for bonito, mostra, mostra porque os olhos não querem ver quem está ali no retrato, mas como está ali, como é o corpo, qual é o tamanho, quais são as outras medidas.





Quando o Henrico disse "sempre estou procurando uma forma de se encaixar e de sentir bem" propus que o ensaio se chamasse In(sólito), porque poderia brincar com a ideia de não pertencimento e ao mesmo tempo de poder pertencer. "Adoramos a ideia de acordar e encontrar com as pessoas que são do nosso nicho, que nos confortam e nos fazem sentir parte de algo maior do que nossa individualidade".

Nessa perspectiva abrimos mão do que é nosso, como as convicções, as culturas e até mesmo mudamos o nosso jeito de ser, como eu disse, para que possamos pertencer a algo. A grande questão é, às vezes, abrimos mão da nossa parte insólita, a parte que não deve pertencer a nada além de nós mesmo é deixada de lado, porque apreciamos a ideia de que “precisamos” fazer parte.






Digo isso porque, talvez, não seja normal acordar e não apreciar o tamanho do nariz, a diferença dos dentes, as gordurinhas a mais. Às vezes me encontro diante disso, desses questionamentos que faço a mim mesmo e depois me pego refletindo sobre “qual a origem disso?”. Será o motivo dessa solitude as pessoas dizerem que deveria ser assim, invés de assado?






Talvez devêssemos ser todos assado, para mostrar que somos iguais na diferença, nos tamanhos, nas belezas. Que está tudo bem ser diferente e não precisar se encaixar, com o corpo, em algum estado de beleza que sempre exige demais do que apenas aceitação.




in(sólito) /adj/
1. que não é habitual; infrequente, raro, incomum, anormal. 2. que se opõe aos usos e costumes; que é contrário às regras, à tradição. (1. que se acostumou, que adquiriu o hábito; habituado, acostumado. 2. que costuma acontecer com frequência, que não é raro; costumeiro, habitual, usual.)


Texto: Igor Medeiroz
Fotografia: Igor Medeiroz

07 April, 2018


Se existe uma coisa que adoro escrever, é sobre romance. Gosto dos romances porque eles intensificam a vida, os sentimentos e propõe uma perspectiva (geralmente) positiva sobre a vida. O ensaio feito com o Wally fala justamente sobre isso, um romance, mas não um qualquer, não um romântico: mas o seu relacionamento com a dança.




“Minha avó tem uns vídeos na casa dela que me mostra ainda criança dançando entre os adultos, desde muito novo eu danço, meu pai dançava charme, os famosos passinhos sociais, foi uma espécie de incentivo par mim. Entrei em vários grupos de dança, como axé, tive a oportunidade de dançar jazz dentro de uma academia qual eu consegui bolsa e a partir daquele momento segui com aquilo para a vida toda. ”




Não existe dança e Wally separados, acho que na verdade, sem dança não haveria Wally.

Decidi trabalhar com dança, ser bailarino e viver disso aos 17 anos quando encontrei a dança contemporânea, essa ideia se solidificou com o passar do tempo, quando já estava fazendo cursos, ministrando aulas e quando percebi já estava totalmente inserido dentro da dança. Não é um trabalho fácil, porque querem que você dance muito bem sem permissão para erros, ser bailarino exige muito da essência, você tem que estar ali presente corpo e alma. Apesar de tudo sei que consigo ser feliz com a dança e serei feliz com a dança, por isso persisto.




A dança flui do meu corpo, de quem eu sou, é algo meu. A dança é minha vida, não me vejo mais sem.

ritmo /sm/
2. movimento regular e periódico no curso de qualquer processo; cadência. 3. sequência harmônica de um fenômeno, uma atividade, uma obra etc., no espaço e/ou no tempo..
31 March, 2018

Pra quem me conhece sabe o quanto tenho facilidade em falar de sentimentos e relacionamentos, por sorte, não sou o único que se sente à vontade com o assunto, a conversa com o Victor foi sobre amores antigos, corações partidos e aventuras. Sempre existe uma história que chama atenção e até mesmo lembramos com um carinho imenso, guardamos no bolso da caminha, do lado esquerdo, perto do coração:

"Depois de muitas quedas, descobri que às vezes quando tudo dá errado de repente acontecem coisas tão maravilhosas que jamais teriam acontecido se tudo tivesse dado certo. Quando me amei de verdade pude compreender que em qualquer circunstância eu estava no lugar certo na hora certa. Me apaixonei por um cara que foi muito especial para mim, a forma que nos conhecemos foi intrigante, e curioso, na escadaria da igreja lá estava ele, participando do mesmo evento que eu, apesar de ambos terem ido todos os dias apenas no último nos conhecemos, acompanhado de uma troca de olhares e sorrisos com os olhos. "


- Olá, Roberto.
- Oi.
Éramos tímidos, então foi curto e rápido.

Sabe quando seus olhos ficam tão vidrados que você deixa de perceber o tempo, as coisas perdem os sentidos? Durante aquele dia, aquela cena se repetiu várias e várias vezes na minha cabeça; tudo muito confuso, porque nunca tinha sentido algo daquele jeito, não sei se foi pela beleza, carisma, a forma que me olhou ou apertou as minhas mãos. Aconteceu algo ali.


Mais tarde, na mesma noite, sentamos juntos e conseguimos trocar algumas palavras, de onde morava, telefone, essas coisas; apesar de ter passado o dia com ele na cabeça, foi tudo muito natural essa troca de informações. Desde então, o tempo foi passando e a amizade crescendo. Apesar de morar longe da minha casa, ele nunca se inibiu no deslocamento, quando queremos estar perto de alguém isso não impede; o ano foi passando e estávamos mais intensos, fazendo coisas juntos e sendo felizes de uma forma muito boa.

Ele é extrovertido, bonito, inteligente, fazer coisas de quem se importa, não tardou para dizer que me amava. As coisas ficaram mais estreitas para o meu lado, porque eu sabia sobre a minha escolha, eu o amava faria qualquer coisa que estivesse ao meu alcance por ele. Havia essa reciprocidade, mas ele se dizia, e diz até hoje, ser hétero. A intimidade que tínhamos era absurda para ele dizer que não poderia haver nada entre nós ou me afirmar que era apenas amizade, pelo o medo de perder ter sido maior que qualquer coisa, não cheguei a tentar além de uma “amizade”, nunca rolou um beijo ou sexo - namorávamos com direito a ciúmes, de tomarmos banhos juntos, de assistir filmes de conchinha, de estar perto e não desgrudar um do outro e de ter partes do corpo sempre se tocando.


Nunca irei me esquecer quando ele começou a namorar uma menina e só fiquei sabendo um mês depois, quando questionei, com a desculpa de que “eu não iria gostar”. E eu nunca entendi porque teria que gostar ou não gostar, o que minha opinião tinha em relação ao namoro? Então um segundo questionamento veio à cabeça “o que estava acontecendo entre a gente que afetava ele também? ”.

As coisas estavam mudando rápido demais, já não recebia tanta atenção dele por causa da nova namorada. Comecei a ter ciúmes e demonstrar para ele que estava com ciúmes e ele não me repreendeu, mas falou que iria me dar mais atenção. Um tempo depois descobri o termino do namoro e percebi pela aproximação repentina, a saudade sem precisar dizer nada, as coisas começaram a voltar a ser como antes, muito amor envolvido, o cheiro dele pairava aonde quer que eu estivesse, a paixão voltava a crescer; e eu ainda com medo de tentar algo, perdi várias oportunidades, mas o medo de magoar era maior.

Isso começou a ficar tão sufocante, difícil, eu insistia comigo mesmo que ele deveria me dar uma resposta sobre tudo aquilo, um sinal que fosse sei lá, as vezes acho que foi isso que eu errei, tentar achar uma explicação e não viver realmente tudo aquilo sem se preocupar.


Um dia, depois de mais de dois anos de história decidi que precisava sentar e conversar, mas não consegui. Esperei ele ir embora e mandei mensagem com um textão daqueles contando tudo: o que estava sentindo e o quanto precisava de um posicionamento dele.

 Uma demora pra responder, e uma resposta surgiu, meio sem pensar.

A ficha veio cair quando ele disse “eu te amo, mas como meu amigo, você como alguém próximo a mim deveria saber do que eu gosto e do que eu não gosto”, não vi mais nada, comecei a chorar a ficar decepcionado comigo e com ele, poderia ter me falado a verdade desde o início. Até hoje busco isso dele. Cheguei a questionar inúmeras vezes tudo que vivíamos, a nossa intimidade incomum, os momentos que olhávamos um para outro esperando a reação para ter algo mais íntimo, queria pelo menos que ele tivesse escrito “você é louco, isso nunca aconteceu”.

Se passaram semanas ele ainda tentou voltar a conversar como se nada tivesse acontecido, mas eu estava muito magoado, muito mesmo. Então resolvi esquecer esse sentimento ruim e viver novas aventuras, me dedicar mais no trabalho, namorei um cara incrível, apaixonei de novo. Foi a mesma época em que ele noivou, com a minha amiga de infância e como se não bastasse recebi o convite para ser padrinho, sim eu iria ser padrinho do casamento dele, mesmo depois de muito tempo sem falar, sem tocar no assunto que nos afastou por tanto tempo. Eu aceitei porque sabia eu estava dando um passo por mim mesmo, nossa me senti tão bem, por estar vendo a situação de outra forma. Percebi que podemos ser felizes e fazer as pessoas felizes independentes do que ela nos causou, retribuir momentos bons.



Só o tempo para curar muita coisa, hoje ele ainda não sabe o que quer (o casamento não deu certo) e achou que em algum momento tudo poderia voltar a ser como antes depois de muitos anos, mas infelizmente aqui o amor próprio faz morada e não pretende sair tão cedo.

Eu, sigo a vida muito feliz, cantando e sorrindo.

O amor te surpreende de várias formas.


intimidade /sf/
1. a vida doméstica, cotididana. "poucos usufruem de sua i." 2. relação muito próxima; amizade íntima; familiaridade.
30 March, 2018



Nasci dentro de uma família evangélica (pais pastores), tradicional e ser diferente disso nunca foi uma opção. Desde pequeno foi constantemente ensinado o erro que era qualquer coisa que fugisse do padrão de afetivo "homem & mulher". Foi difícil para mim conviver com algo que não compreendia, a homossexualidade não fazia parte do meu mundo, mas naquela mesma época via os meninos e olhava com uma perspectiva diferente dos meus amigos – inclusive não me sentia parte do grupo dos meninos, porque gostava de falar sobre coisas que “não-são-de-menino".



Comecei a me perceber mesmo como a princesa que sou mais ou menos aos 12 anos, quando meus amigos começaram a falar de garotas e relacionamentos, enquanto não me via com menina nenhuma. Aos 13 eu pedi uma amiga minha em namoro, na tentativa falha de me curar dessa “doença” e voltar a ser “normal”. Foram dois anos de sofrimento, onde chorava horrores no meu quarto pensando que realmente existia um problema.



Por volta de um ano e meio fiquei dentro de processo depressivo intenso e recluso, perdi 24kg e não fazia mais absolutamente nada além de trabalhar e chorar no meu quarto – pensando ser um erro total. Senti inveja dos meus primos héteros e da vida que levavam, senti inveja da minha irmã que era da igreja e a filha favorita dos meus pais, enquanto eu era a aberração.

Após uma longa pausa, até os 17 anos, percebi que era o momento de encarar o fato de que sou gay e que isso sempre me pertenceu – não existe nada de errado em ser quem eu sou. Então contei para duas amigas sobre mim, uma delas é a Julia, que foi a primeira pessoa a saber. Após isso fui me liberando aos poucos, conhecendo outros garotos e começando a me envolver.

Um ano depois, com 18 anos, meus pais descobriram. Esse momento que me marcou muito, pois nunca cogitei a hipótese de ser tão maltratado pelos meus próprios pais – isso, na época, quebrou toda essa confiança que tinha adquirido aos poucos comigo mesmo.
Um dia me abri com uma amiga em relação a minha sexualidade e sobre como eu me sentia – que foi muito doloroso porque precisei aprender a me abrir totalmente do zero para alguém. Ela me fez ter uma perspectiva totalmente diferente sobre o que estava acontecendo, me mostrou que o erro nunca foi eu, que sempre tentei ser filho/amigo/primo/irmão perfeito e que o fato de ser diferente deveria me agregar mais valor e não me tornar um monstro.

Percebi que não havia motivos não me desmerecer em nada e que sou maravilhoso apenas do jeitinho que eu sou. Hoje percebo que duas coisas que salvaram minha vida em relação a isso, primeiro foi a minha amizade com Julia e Luiz (meu primeiro amigo gay 120% bem resolvido consigo mesmo, um exemplo muito foda para mim) e a série que assisto desde novinha que é GLEE (aborda muito a aceitação da própria durante a adolescência, mesmo que hoje pareça uma série besta, na época foi importante para mim, pois me identificava e me dava a esperança de que poderia ser feliz do jeito que eu sou).



Hoje estou plena, bem resolvida, tranquila. Minha sexualidade não é mais nenhum tabu ou preocupação para mim – é algo que me orgulho bastante. Faço questão de ser como eu sou, não me mudaria nem mesmo se tivesse a oportunidade.


Livre/adj/
1. que é senhor de si e de suas ações. "l. para decidir" 2. que não está sob o jugo, que não é escravo de outrem.


Fotografia: Igor Medeiroz